Livro do mês: Corpos Dissidentes na Arte Joseense, de Henri Ferraz e Mandú Carvalho

Corpos Dissidentes na Arte Joseense

Como a arte produzida por pessoas LGBT+, queer e com deficiência circula em São José dos Campos? Quais expressões conseguem ocupar os espaços culturais da cidade — e quais permanecem submetidas à censura, à autocensura ou à invisibilidade?

Essas questões orientam Corpos Dissidentes na Arte Joseense, pesquisa realizada pelo Núcleo Abantesma e assinada por Henri Ferraz e Mandú Carvalho. Publicada em 2026, a obra investiga as condições de produção, circulação, recepção e permanência da arte dissidente no município.

O livro parte de uma pesquisa situada: o Núcleo Abantesma participa do campo cultural que analisa e transforma a própria trajetória em uma das fontes do estudo. Essa posição permite relacionar dados, entrevistas e episódios vividos pelo coletivo com os mecanismos que regulam a presença de corpos dissidentes na cultura joseense.

A publicação se organiza em quatro eixos. O primeiro recupera aspectos da formação histórica de São José dos Campos, relacionando processos de colonização, higienismo, industrialização e reorganização urbana ao controle dos corpos. O segundo examina casos recentes de censura e pânico moral na cidade, incluindo o cancelamento da participação da escritora Milly Lacombe na Festa Literomusical de 2025.

O terceiro eixo apresenta uma autoetnografia do Núcleo Abantesma. A pesquisa retoma situações enfrentadas pelo coletivo desde sua fundação, como abordagens durante performances urbanas e restrições impostas a projetos culturais. Esses episódios são analisados como parte de uma estrutura que determina quais obras, discursos e corpos encontram legitimidade para ocupar os espaços públicos.

Por fim, a publicação reúne entrevistas com dez artistas e agentes culturais LGBT+ ou queer que atuam em São José dos Campos. Os depoimentos ajudam a identificar quais produções são lembradas, como circulam e quais dificuldades estão presentes em sua realização.

Entre os principais resultados, a pesquisa aponta que a arte dissidente existe na cidade, mas permanece concentrada em poucos artistas e coletivos, com baixa continuidade e pouca sustentação institucional. A escassez de referências a produções crip e a artistas com deficiência aparece como uma das lacunas mais graves identificadas pelo estudo.

A obra observa ainda uma diferença entre os formatos que conseguem maior aceitação. Trabalhos educativos e voltados à conscientização aparecem com mais frequência, enquanto produções relacionadas ao erotismo, ao prazer e à autonomia corporal são raras ou apresentadas por caminhos indiretos.

A partir desses dados, Henri Ferraz e Mandú Carvalho propõem o conceito de “regime de produção baseado em aceitabilidade”. Nesse sistema, determinadas expressões dissidentes são toleradas desde que se adaptem a formatos considerados menos ameaçadores pelas instituições e pelos setores conservadores da sociedade.

Ao documentar essas limitações, Corpos Dissidentes na Arte Joseense oferece um diagnóstico sobre a cultura local e abre espaço para novas pesquisas. O livro chama atenção para a necessidade de fortalecer redes, políticas públicas e espaços seguros para que artistas dissidentes possam produzir e circular sem depender da adequação de seus trabalhos aos limites da aceitabilidade.

Trecho do livro

“A produção artística e cultural dissidente em São José dos Campos não se caracteriza por sua ausência, mas por sua inscrição em um sofisticado regime de produção baseado em aceitabilidade. Em resumo, essas produções existem e resistem, mas operam sob condições adversas de produção, circulação e continuidade. Produzir, pesquisar e existir como corpo dissidente neste contexto territorial não é apenas uma prática estética, poética ou acadêmica, mas também um gesto político que desafia, continuamente, as fronteiras do possível.”

O que é o Núcleo Abantesma

Cartaz de divulgação do projeto Cosmos: Corpo-Rio em Cruzo, do Núcleo Abantesma, com previsão de lançamento para 2026

Fundado em 2020 e sediado em São José dos Campos, o Núcleo Abantesma é um coletivo de artistas-pesquisadoras que desenvolve projetos relacionados a corpo, medo, colonialismo, raça, gênero e território.

O grupo atua com performance, teatro, vídeo, fotografia, videoarte, pesquisa e formação cultural. Seu núcleo fixo é formado majoritariamente por pessoas queer, racializadas e jovens, que articulam referências acadêmicas, tradições orais, filosofias urbanas e movimentos sociais em suas produções.

O coletivo mantém a Casa Coletiva do Núcleo Abantesma, espaço cultural independente que funciona como moradia, hospedagem solidária, ateliê, estúdio, sala de corpo e local de formação para artistas, pesquisadores e coletivos.

Em Corpos Dissidentes na Arte Joseense, Henri Ferraz e Mandú Carvalho assinam a autoria da pesquisa. O roteiro do audiolivro com audiodescrição é de Du Fernandes. O projeto foi contemplado pelo Fundo Municipal de Cultura de São José dos Campos, por meio do Edital 009/P/2025 – Bolsa de Pesquisa em Cultura e Economia Criativa.

Onde acessar Corpos Dissidentes na Arte Joseense

O livro digital e o audiolivro com audiodescrição estão disponíveis gratuitamente no site do Núcleo Abantesma.

Redes sociais

Instagram: @nucleoabantesma


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