E a Flim 2025?

por: Renata Guarino

A 11ª edição da Festa Literomusical de São José dos Campos (Flim 2025) foi adiada após a crise desencadeada pelo veto do prefeito Anderson Farias à participação da jornalista e escritora Milly Lacombe na mesa de abertura. Previsto para setembro de 2025 no Parque Vicentina Aranha, o evento teve sua programação inviabilizada depois que a decisão motivou a renúncia coletiva das quatro curadoras e a retirada de diversos autores, mediadores e artistas convidados.

O veto, baseado em um recorte de fala de Milly que circulou nas redes sociais fora de contexto, gerou repercussão regional e nacional, ampliando pressões sobre a organização. As curadoras – Alice Penna e Costa, Tania Rivitti, Bia Mantovani e Bruna Fernanda – anunciaram a saída afirmando não haver condições éticas e profissionais para seguir à frente da programação, o que desencadeou uma onda de cancelamentos por parte de convidados que apontaram censura e violação da liberdade artística.

Diante do desgaste e da impossibilidade de manter a estrutura original, a Flim 2025 foi oficialmente adiada. Após semanas de incerteza, a nova data foi confirmada para 28, 29 e 30 de novembro de 2025, novamente no Parque Vicentina Aranha. A edição remarcada adotou o tema “Voam as palavras no Parque das Letras, formulado pela nova equipe para reforçar a formação de leitores e orientar a reconstrução do festival após o impacto político e simbólico da suspensão.

Criada em 2014, a Festa Literomusical de São José dos Campos tornou-se um dos principais eventos culturais da cidade, reunindo escritores, artistas, educadores e leitores em uma programação gratuita dedicada à literatura e à música. O adiamento alterou o calendário da edição de 2025 e, conforme registrou o G1, a edição remarcada ocorreu com movimento de público abaixo dos anos anteriores, após as tensões que antecederam a reorganização.

O veto, os cancelamentos e as consequências

O veto à participação de Milly Lacombe desencadeou uma reação imediata nos bastidores da Flim 2025. A decisão, baseada em um trecho de vídeo divulgado fora de contexto, pressionou a organização e alterou o curso do evento. O episódio também levou o Ministério da Cultura a publicar uma nota de repúdio, na qual classificou o veto como censura, defendeu a autonomia das curadorias e solicitou esclarecimentos formais à prefeitura.

Para a escritora Shiva Carolina, selecionada para a edição cancelada e uma das autoras que permaneceram na programação remarcada, a crise se ampliou justamente pelo modo como o recorte circulou nas redes: “Quem quiser entender o texto todo precisa assistir à reportagem. O prefeito tomou medidas sem imaginar a proporção que a fala teria.”

A renúncia das quatro curadoras – Alice Penna e Costa, Tania Rivitti, Bia Mantovani e Bruna Fernanda – marcou o primeiro movimento concreto após o veto. Em nota pública, elas afirmaram ter sido “surpreendidas com a censura à presença de uma de nossas convidadas para a mesa de abertura”, o que, segundo o grupo, inviabilizou a continuidade do trabalho.

A saída abriu caminho para uma sequência de desistências anunciadas nas redes sociais. Xico Sá declarou que Milly havia sido “censurada e silenciada politicamente”. O escritor Cuti, escalado para a mesa de abertura, também se retirou, seguido por Helena Silvestre, Luiz Ketu, Christian Dunker, Micheliny Verunschk, Noemi Jaffe e outros nomes da programação. De acordo com o G1, a “onda de cancelamentos” comprometeu o funcionamento da feira antes mesmo do anúncio oficial do adiamento.

O movimento se espalhou entre os autores da região. A joseense Jéssica Anitelli afirmou que não participaria por “não compactuar com censura”, posição que se repetiu entre escritores que haviam investido em tiragens, materiais e deslocamentos.

No caso de Fernando Alves, que lançaria um livro sobre a Guerra do Contestado, o adiamento representou uma perda direta: “Seria a minha primeira apresentação para o público de São José. Eu me senti prejudicado de maneira significativa”. Valéria Saab, da Academia Joseense de Letras, destacou que muitos escritores iniciantes haviam feito investimentos que não seriam recuperados: “Alguns encomendaram livros para vender na Flim. Esse dinheiro não entrou, e o prejuízo foi grande.”

O adiamento, porém, não encerrou a movimentação em torno da Flim 2025. A retirada de autores, a ruptura da curadoria e as perdas acumuladas criaram um vazio imediato na agenda cultural da cidade, e foi nesse intervalo que diferentes grupos passaram a organizar ações paralelas para manter o encontro entre escritores e leitores. As mobilizações que surgiram nos dias seguintes abriram caminho para as iniciativas independentes que marcaram a data original do evento.

Mobilizações alternativas à Flim 2025: resistência e reações da comunidade cultural

As mobilizações que surgiram após o adiamento rapidamente ocuparam o espaço deixado pela programação oficial. No fim de semana em que a Flim 2025 deveria ocorrer, artistas, autores e coletivos culturais organizam encontros, debates e atividades por conta própria, buscando preservar o diálogo interrompido pelo veto e pelos cancelamentos.

A primeira delas foi o Ocupa FLIM, realizado no dia 19 em frente ao Parque Vicentina Aranha, onde autores, leitores e músicos promoveram mesas literárias e apresentações artísticas em defesa da liberdade de expressão. Para a integrante Bruna Tau, o episódio não deixou dúvidas: “Não existe outro nome para isso que não seja censura política.” Ela destaca que a organização das atividades foi feita em pouco tempo: “Fizemos isso em um dia e meio, para que algumas mesas acontecessem e para que a gente entendesse o que estava acontecendo e pudesse se manifestar.”

Durante o Ocupa FLIM, houve apresentações de rap, rodas de rima, performances, literatura, dança e manifestações públicas de apoio às curadoras e artistas que haviam deixado o evento.
Durante o Ocupa FLIM, houve apresentações de rap, rodas de rima, performances, literatura, dança e manifestações públicas de apoio às curadoras e artistas que haviam deixado o evento. Foto: Renata Guarino

Outra iniciativa importante foi o 1º Encontro de Autores Afrodescendentes de São José dos Campos, realizado no Ponto de Cultura Bola de Meia. Idealizado pela escritora Shiva Carolina, o encontro surgiu como resposta ao impacto do adiamento sobre os autores negros selecionados para a Flim 2025. “Investimos tempo, criamos expectativas, e precisávamos nos unir naquele momento”, afirma. Segundo ela, a atividade permitiu retomar o diálogo com o público: “A gente precisava divulgar nossos trabalhos e não deixar que tudo fosse interrompido.”

Para Shiva, o saldo do encontro foi de fortalecimento coletivo e reafirmação de pertencimento: “A sensação é a de que o sonho é possível.” Realizado em formato de roda, o evento priorizou a participação horizontal: “As pessoas se uniram, falaram, relataram seus trabalhos. Não era só o protagonismo de quem estava na mesa, mas de todo mundo que estava em roda.” Ela destaca que o impacto estava menos no número de participantes e mais na intensidade das presenças: “A energia pairou no ambiente. As cadeiras foram sendo preenchidas com pertencimento e afeto”.

1º Encontro de Autores Afrodescendentes de São José dos Campos
1º Encontro de Autores Afrodescendentes de São José dos Campos reuniu escritores como Shiva Carolina, Fernando Alves, Thalita Monte Santo e Larissa Ferreira , além da participação especial de Neide Faustino, de Analu Oliveira e Zelito. Foto: Renata Guarino

A censura reforçou para ela a necessidade de transformar sua presença em Além dessas ações, a cidade recebeu a Livro Livre: A Feira de Todos os Leitores, organizada pela Livraria Mantiqueira como alternativa imediata à programação oficial. Com mesas literárias, debates, oficinas e apresentações artísticas, a iniciativa buscou acolher autores e leitores afetados pelo adiamento. Em suas publicações, a livraria descreveu a feira como uma forma de transformar “o limão em limonada aos órfãos da Flim”, destacando que a programação emergencial foi criada para preservar o encontro entre leitores e escritores.

Impactos da Flim 2025 para autores, comunidade e institucionalidade local

As ações independentes que ocorreram após o adiamento ajudaram a manter alguma circulação literária na cidade, mas não neutralizaram os efeitos financeiros e emocionais associados à suspensão da Flim 2025. Para autores, produtores e profissionais envolvidos na preparação da festa, a decisão significou prejuízos imediatos, frustração e a interrupção de processos que vinham sendo construídos desde o início do ano. O episódio também repercutiu entre instituições culturais, que viram na crise sinais de disputas mais amplas sobre a política cultural do município.

Entre os mais afetados estavam os escritores selecionados para a mesa da Academia Joseense de Letras (AJL), composta majoritariamente por autores independentes e, em sua maioria, negros da região. Para eles, a participação na feira representava oportunidade rara de circulação e visibilidade. O escritor Fernando Alves, que lançaria seu livro sobre a Guerra do Contestado, resume o impacto material da suspensão: “Eu tinha feito 200 tiragens do projeto e 100 do meu próprio bolso”. A interrupção da feira o deixou com estoque recém-produzido e sem o principal espaço previsto para apresentar a obra.

A escritora Thalita Monte Santo, também selecionada, ressalta que o aspecto financeiro foi decisivo: “Eu investi um dinheiro que não tinha para isso acontecer.” Como autora independente, depende da compra e revenda de exemplares: “Se eu precisar desses livros, eu preciso comprar muita coisa. Eu mando fazer, eu revendo.” Para esta edição, preparou novos materiais: “Mandei fazer quatorze livros, fiz cartazes, comprei o que eu consegui comprar.” A expectativa de recompor os gastos ficou comprometida com o cancelamento: “Quando eu pensei que conseguiria repor esse valor no fim de semana, veio a notícia do adiamento.”

Para Larissa Ferreira, outra integrante da mesa, a seleção no edital representava reconhecimento e avanço profissional: “É uma realização, porque não é uma feira para todo escritor.” Ela afirma que o anúncio da suspensão trouxe frustração adicional, agravada pela falta de acolhimento em sua cidade de origem, Jacareí: “É uma cidade que não me acolhe como autora.” Em São José dos Campos, porém, a autora identifica um espaço de visibilidade: “Em São José eu consigo me ver.” Com isso, a interrupção afetou não apenas sua expectativa de venda, mas também um percurso simbólico de afirmação na cena literária regional.

A escritora Shiva Carolina, que igualmente integraria a mesa da AJL, destaca que atuar no Vicentina Aranha carrega desafios próprios: “É um espaço muito elitizado, não é um lugar ao qual eu pertenço.” Segundo ela, levar à Flim 2025 discussões sobre racismo escolar era parte central de sua participação: “As crianças pretas sofrem racismo diariamente. Isso precisa entrar na pauta para além de novembro.” Para Shiva, a suspensão interrompeu um debate que considera urgente: “Fiquei com a sensação de estar ocupando esse lugar para dizer que as crianças pretas sofrem racismo diariamente.”

A incerteza dos dias que antecederam o anúncio oficial também impactou quem compunha a mesa. Thalita relata que viveu uma sequência de emoções: “Primeiro eu vivi o sonho, depois fiquei triste, depois com medo, depois revoltada, e voltei a ficar triste. Foi assim várias vezes.” Ela conta que colegas cogitaram abandonar a programação, o que a levou a temer que a atividade fosse totalmente inviabilizada: “Comecei a ficar preocupada em relação a como aconteceria se todo mundo desistisse.” Permanecer, afirma, era também um gesto político: “Ser autora independente tornou esse momento ainda mais delicado.”

A repercussão da crise também atingiu a equipe de produção. Bruno Mantovani, que participaria da montagem da estrutura, lembra que os preparativos estavam avançados quando a mudança foi anunciada, “dentro dessa confusão de narrativas e posicionamentos, a cultura é maior que isso. A gente está aqui para construir pela cidade e pelas pessoas”. Logo após o adiamento do evento, ele apontou que a definição de uma nova data envolveria trâmites administrativos: “Ainda estamos sugerindo e conversando com parceiros e patrocinadores para entender como isso vai se dar.”

No campo institucional, o veto reacendeu discussões já presentes no setor. Alcemir Palma, ex-presidente da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR), relaciona o episódio a decisões anteriores da gestão municipal: “É uma prática que já vem de proibir. Ele proibiu marchas, discutem a questão da FNACS, ele proibiu livros nas escolas.”

A vereadora Amélia Naomi avalia que os efeitos da crise podem influenciar o futuro do festival: “Ele está vetando, inclusive, que outros intelectuais e livreiros participem da Flim. Ele não está acima da cultura.” Ela defende que a escolha de convidados deve permanecer sob responsabilidade curatorial, sem interferência do Executivo.

Entre movimentos culturais, a percepção é semelhante. Para Bruna Tau, integrante do Ocupa FLIM, o caso reflete um processo gradual de enfraquecimento institucional: “A gente chegou a um lugar muito bacana de visibilidade, mas de uns anos para cá vimos claramente esse desmonte acontecendo.” Ela cita episódios anteriores que já indicavam interferências, como o caso envolvendo Maria Gadú: “Ali ficou muito claro o primeiro grande cerceamento”.

Retomada da Flim 2025: nova edição, expectativas e desafios

A edição remarcada da Flim 2025 aconteceu nos dias 28, 29 e 30 de novembro de 2025, novamente no Parque Vicentina Aranha. Segundo o G1, o movimento do primeiro dia foi “abaixo dos anos anteriores”, indicando que parte do público ainda demonstrava cautela após a crise de setembro. A nova programação, reorganizada após a ruptura, concentrou-se em atividades de formação de leitores e ações voltadas ao público infantojuvenil sob o tema “Voam as palavras no Parque das Letras”.

O período entre o adiamento e a remarcação foi marcado por forte desgaste emocional entre autores e organizadores. A escritora Zenilda Lua, que colaborou na reestruturação da edição, descreve o esforço coletivo como uma resposta necessária ao impacto sentido na cidade: “O momento era crítico e devastador. Encontramos um modo de ressignificar para que nos outros anos a Flim volte com força.”

Para Zenilda, o evento ocupa um lugar que ultrapassa sua dimensão literária. Ela relembra que a primeira edição, em 2014, se tornou um marco pessoal: “A Flim passou a ser o meu símbolo de conexão com o belo, com o inédito e com a acessibilidade. A primeira edição aconteceu quando eu estava atravessando um luto terrível. Foi ali que encontrei uma pulsão de vida.”

Apresentada pela própria organização como curadora da nova edição da FLIM 2025, Zenilda Lua prefere se definir apenas como apoio cultural do evento.
Apresentada pela própria organização como curadora da nova edição da FLIM 2025, Zenilda Lua prefere se definir apenas como apoio cultural do evento. Foto: Acervo pessoal.

A notícia do cancelamento em setembro, afirma, provocou um abalo imediato: “Chorei na janela do meu quarto, chorei pelas pessoas que investiram seus parcos recursos, por quem sonhou em estar ali.” Para a autora, a interrupção atingiu não apenas uma agenda cultural, mas “uma década de criação coletiva e de afeto.”

A repercussão em torno do veto também foi lida por ela como agressão simbólica: “As pessoas que criticam, cancelam e censuram são pessoas que não leem, que não compreendem o alcance da arte. O que aconteceu foi como estar diante de um paredão de fuzilamento – uma violência simbólica.”

Embora não tenha participado da definição do novo tema, Zenilda passou a dialogar com ele durante o processo de reconstrução. Para ela, o foco nos leitores mais jovens reflete uma necessidade estrutural: “Pensamos na ideia de formar leitores, porque não adianta fazer uma Flim para pessoas que não leem. A literatura precisa chegar antes.” Citando Antonio Candido, reforça que “a palavra é um direito humano e deve voar livre, chegar a todos.”

A remarcação também reconfigurou o papel das instituições locais. A Academia Joseense de Letras (AJL), que integraria a programação original, decidiu não participar da nova edição. O presidente da entidade, Eduardo Caetano, explica que a decisão se relaciona ao tratamento dado aos autores regionais: “Porque sabe quanto cada escritor regional recebe para participar de uma feira literária como essa? Nada. A gente trabalha de graça ou, mais ainda, a gente paga para trabalhar.” Ele afirma que, enquanto convidados de fora recebem cachê, os escritores locais assumem custos pessoais: “Se quisermos comer um lanche, tomar um choppinho, pagar nossas ferramentas, tudo é do nosso bolso. Não é a melhor forma de fomentar a literatura regional.” Para a AJL, nesse cenário, não haveria condições de compor a edição remarcada.

Entre coletivos que acompanham a Festa há anos, a nova organização também despertou avaliações. Bruna Tau, do Ocupa FLIM, afirma que há grande respeito pelo percurso de Zenilda e de Sônia Gabriel: “São verdadeiros tesouros da nossa cidade.” Ela observa, no entanto, que ambas foram colocadas em uma posição complexa: “Elas não se veem como curadoras, mas a Flim 2025 acabou publicando seus nomes nesse papel. É difícil fazer em tão pouco tempo, sem dinheiro e sendo caladas.” Para o movimento, a edição voltada ao público infantojuvenil representa uma tentativa de manter o evento vivo dentro das limitações existentes.

A presença de Zenilda teve peso decisivo para autores que optaram por permanecer na programação. A escritora Shiva Carolina destaca a admiração que tem pela curadora, com quem convive desde o Poesia no Prato: “Tenho a Zenilda como uma musa na literatura daqui. Quando ela me convidou, eu não consegui pensar em algo diferente de aceitar.” Em meio ao clima de tensão, o convite ganhou significado especial: “Entendi a importância de fazer parte dessa edição, mesmo diante de toda a problemática que envolve a Flim.”

A reorganização da Flim 2025 também esteve condicionada a obrigações administrativas. Segundo Eduardo Caetano, a AFAC precisava realizar o evento ainda em 2025 para cumprir as exigências legais dos recursos captados: “Eles têm que comprovar centavo por centavo. Se não executassem, poderiam responder judicialmente por captar a verba e não investir no lugar informado.”

Nesse contexto, grupos de autores tiveram de decidir rapidamente se permaneceriam ou não. Conforme relata o Ocupa FLIM, as discussões foram intensas, porém breves. Para Bruna Tau, o dilema era evidente: “Esses autores se prepararam durante muito tempo para estar numa feira deste porte. De repente, você não vai ter mais isso.” A virada ocorreu quando nomes de maior visibilidade anunciaram sua saída da programação: “Se os grandes começaram a sair, nós pequenos vamos entrar juntos.”

Entre os escritores que mantiveram sua participação na edição remarcada, Danusa Machado interpreta a continuidade como compromisso com o público e com a própria noção de arte: “É essencial que quem decidiu seguir possa entregar o seu melhor em respeito à arte, à cultura e às pessoas que se deslocam para estar ali.” Para ela, insistir em ocupar espaços após episódios de censura é um ato político: “Quando a gente insiste em ocupar espaços, é um ato de resistência.”

A escritora Liza Scavone, que também permaneceu, projeta que a Flim deve retomar progressivamente seu papel no município: “Espero que continue se fortalecendo como um espaço importante para a literatura, reunindo autores, educadores, artistas, famílias e leitores de todas as idades.”

Shiva relata que seu posicionamento está diretamente ligado à experiência de ser mãe de um menino negro em uma cidade marcada pela desigualdade racial: “Se ele está de moletom, seguram a bolsa; se ele anda sozinho na rua, já é visto como ameaça.” Nesse contexto, sua participação ganhou nova dimensão: “Você consegue entender a importância de eu estar na Flim. É muito grande, é muito importante e muito potente eu estar lá.” Ela reforça que sua presença representa também seu coletivo: “Vou estar representando todo um coletivo, nossa participação na festa é parte dessa conversa sobre o racismo.”

Ao projetar os próximos anos, Shiva enfatiza os desafios enfrentados pela cena cultural local: “A classe artística está sempre na luta pela sobrevivência. A gente sempre deseja permanecer em pé dentro dessa cidade tão conservadora.” Para ela, cada edital e cada festival recoloca incertezas sobre os rumos da cultura na região.

Para Zenilda Lua, apesar do desgaste, o futuro do festival ainda pode ser reconstruído: “Todo mundo precisa de uma Flim na cidade. A arte e a literatura são portais para tudo o que é bom.” Ela lembra que São José dos Campos já perdeu iniciativas literárias importantes e que o festival não pode seguir o mesmo caminho: “Já perdemos a Mantiqueira, a Bienal do Livro. Eu não suportaria ver a Festa ser mais uma perda.” Em sua avaliação, o festival continuará encontrando caminhos de permanência: “Se três pessoas passarem pelo parque e levarem algo da escuta, já terá valido a pena.”

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