Livro do mês: Encantaria – Analu Cristina

Encantaria nasce da necessidade de expressão íntima e intuitiva. Poesia que ecoa internamente e pede passagem para expandir-se através desta artista negra brasileira, que reconhece sua voz como um potencial de atuação no mundo e nas transformações sociais.
Em seu terceiro livro de poesias, Analu Cristina busca iluminar “Cantos desencantados” e “Encantar as dores”, abordando temáticas sensíveis e convidando as leitoras e leitores a um íntimo mergulho de introspecção e cura, no qual todos os sentimentos são acolhidos e, naturalmente, se metamorfoseiam em matéria poética.
Para “Encantar amores”, a poeta nos oferta poesias eróticas com viés libertário e feminista: relações em que se prioriza o prazer feminino – tantas vezes negligenciado e demonizado na sociedade patriarcal – e relações entre mulheres.
Na última das 4 partes do livro, “Reencantar a vida”, os poemas abrangem questões diversas, como a negritude e a maternidade, além de poesias dedicadas à infância. Seu tom é de esperançar, atitude especialmente necessária em um mundo de subjetividades e relações tão feridas e assustadas no atual cenário político mundial pós-pandemia.
Confira um dos poemas do livro Encantaria:
Serena
E o que mais eu teria a dizer para além delas
porque de suas bocas não escorre agora essa poesia
pois que dormindo estão
em seu sono de lua nova
enquanto eu
sonho acordada e serena
acolhendo silêncios
tristezas miúdas
cansaços de almas femininas
medos delicados
que afloram apenas de madrugada
e voltam a se esconder sob a luz do sol
Pareço uma antena sensível
pelos cabelos
intuo sem saber porque
a dança calada no corpo
dessas que dormem
cansadas que estão
Às vezes
na noite
se movem com doçura…
suas almas bailam suavemente
ao som das ondas
do canto das aves
corujas seres
farfalhar das folhas ao vento
suspiros
nutrem-se do ar perfumado e fresco
voam longe…
respiram com leveza
sentem alegria
livres…
e seus corpos entre lençóis
ganham vida e se relaxam
completamente
suas faces se iluminam com sorrisos delicados
e os cabelos desgrenhados
parecem dançar também…
Outras
percebo
estão como mortas
tão entregues às profundezas
dormem pesadas
suas almas mergulham na escuridão
vasculham com avidez
buscando resgatar suas garras
sua coragem
seus escudos
perdidos num canto sombrio
há muito tempo atrás
Acordam num sobressalto
no meio da madrugada
suadas
nem se dão conta
do tamanho da jornada
voltam a dormir
cansadas
sua alma porta uma lanterna
e não dorme jamais…
(…)
A lua
no céu
se renova
misteriosa
se aparta de nós
cegas ao seu brilho eterno
carecemos de luz e calor
para clarear nossos sonhos de menina
que vez ou outra pipocam aqui e ali
nos enrolamos umas nas outras
em outros também
ou sozinhas
e a alma enroladinha
lembra o caminho de volta
praquele primeiro ninho
de amor
de plenitude
aconchego e carinho
tão indefesa e tão segura
não necessita de nada
se entrega completamente
ao ritmo do corpo e do coração
da mãe
mamãe
mamãe…
semente
se sente em casa
se entende
de corpo e alma
se ama
integralmente
descansa
desperta inteira
Viva.
Quem é Analu Cristina?

Analu Cristina é uma mulher negra de 43 anos, mãe de Miguel, de 16, e de Luê, de 8 meses. Terapeuta sistêmica e artista independente, nasceu na periferia leste de São Paulo, estudou toda a vida em escolas públicas e formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) em 2007. Com cinco obras publicadas de forma independente, Analu realiza oficinas de escrita nas quais estimula a prática artística como ferramenta terapêutica e libertária. Também participa de saraus e apresenta recitais poético-musicais com repertório autoral.
Cinco de suas composições já estão disponíveis nas plataformas digitais, e seu primeiro álbum, Empretecer, tem lançamento previsto para novembro deste ano. Entre suas obras literárias estão O amargo além da bile (2018), Muleta quebrada (2019), Viva (2019), Cazulo (Editora Nua, 2021) e Encantaria (2024). Na música, é autora das canções “Encanto das Amazonas” (2021), “Luz de menininha” (2023), “Empretecer”, em coautoria com Salloma Salomão (2023), “Reflexo” (2024) e “Teimosia” (2024).
Analu compartilha seu trabalho nas redes sociais, onde mantém os perfis @analuescritora e @analucristina no Instagram, além do canal Analu Cristina no YouTube.
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