Crônica | A verdadeira odisseia era a poltrona ao lado
Por Alan Guedes
Fui ao cinema ver A Odisseia e, por algumas horas, descobri que Homero talvez tenha sido econômico demais.
Ulisses enfrentou monstros, sereias, deuses irritados, mares traiçoeiros e o longo caminho de volta para casa. Eu enfrentei uma fileira com quatro ou cinco adolescentes no Kinoplex do shopping Vale Sul. E, sendo honesto, houve momentos em que me pareceu mais fácil atravessar o Mediterrâneo num barco de madeira do que assistir a um filme inteiro ao lado de gente que ainda não entendeu uma regra básica da civilização: sala de cinema não é extensão da sala de casa, nem grupo de WhatsApp com poltrona reclinável.
A experiência começa como muitas tragédias modernas: com uma luz pequena.
Não era o brilho sagrado do projetor da sala de cinema, esse milagre antigo que atravessa a sala escura e nos lembra por que ainda vale sair de casa para ver uma história maior do que nós. Era a luz de um celular. Um pequeno sol particular aceso no meio da escuridão coletiva. A jovem da poltrona ao lado mexia no aparelho como quem realiza uma tarefa de sobrevivência. Rolava a tela, respondia alguma coisa, voltava ao feed, apagava, acendia de novo. E, nos raros momentos em que lembrava que havia pago (ou que alguém que pagou) para ver um filme, olhava para a tela principal com aquele espanto de quem acorda no terceiro ato da própria vida.
Então vinha a pergunta:
— O que está acontecendo?
E o amigo, solidário como só os inconvenientes conseguem ser, narrava.
Não explicava. Narrava.
Como um Galvão Bueno de poltrona, retomava o filme desde o último ponto em que ela havia abandonado a trama para consultar o oráculo luminoso do Instagram, do TikTok, do WhatsApp ou de qualquer outra entidade digital mais importante que a experiência de cem pessoas ao redor. Faltou dizer: “Haja coração, amigo!”. E talvez tenha dito. Confesso que, a esta altura, já não sabia mais o que vinha da tela e o que vinha da cobertura esportiva improvisada ao meu lado.
A ironia é que fui ver A Odisséia e acabei vivendo uma.
Não a do herói diante dos mares, mas a do espectador diante da falta de educação alheia. Não a aventura épica de voltar para casa, mas o exercício quase budista de permanecer sentado, respirar fundo e não fazer minha amiga passar vergonha. Porque, se estivesse sozinho, talvez esta crônica tivesse outro desfecho. Talvez eu tivesse levantado, virado para a fileira e dado um esporro homérico, com direito a invocação dos deuses, maldição das musas e um pedido formal para que guardassem o celular onde nem Poseidon ousaria procurar.
Mas havia uma amiga ao lado. E há amizades que nos salvam não pelo conselho, mas pela presença. A gente pensa duas vezes antes de virar personagem de barraco quando sabe que alguém querido terá de dividir conosco a humilhação pública. Então permaneci ali, digno por fora, incendiado por dentro, praticando uma modalidade pouco reconhecida de autocontrole: a paciência cinematográfica em ambiente hostil.
O problema é que o cinema exige um pacto muito simples e cada vez mais raro: durante duas horas, neste caso, quase 3 horas de filme, todos concordamos em desaparecer um pouco.
Entramos numa sala escura para suspender o mundo lá fora. O celular deveria descansar. A conversa deveria esperar. A opinião imediata deveria se calar até a luz acender. Há algo quase bonito nisso: dezenas de desconhecidos reunidos no escuro, respirando a mesma história, rindo juntos, se assustando juntos, se emocionando em silêncio. O cinema, quando funciona, é uma pequena assembleia de atenção.
Mas a atenção virou um luxo. Talvez mais caro que o ingresso e a pipoca.
Há gente que já não consegue assistir a um filme sem consultar a própria existência a cada cinco minutos. Como se a vida fora da tela fosse desabar caso uma mensagem ficasse sem resposta. Como se o mundo digital tivesse transformado o silêncio em ameaça. O sujeito entra no cinema, mas não entra no filme. Leva consigo o feed, as notificações, os áudios, os comentários paralelos, o hábito de transformar qualquer ambiente em fundo desfocado da própria distração.
E o mais curioso é que essas pessoas raramente parecem maldosas. Seria até mais fácil se fossem vilãs declaradas. Mas não. Muitas vezes são apenas mal educadas com naturalidade. Não percebem o tamanho da invasão porque foram treinadas a achar que todo espaço é delas, toda tela é pública, todo instante pode ser interrompido por uma conferida rápida e, o que é público deve ser respeitado para o uso. A falta de noção contemporânea tem esse traço assustador: ela não se reconhece como falta. Ela se acha formadora de aura.
Talvez por isso ir ao cinema esteja virando, para alguns, um teste de fé. A pessoa paga ingresso, escolhe horário, enfrenta estacionamento, fila, pipoca cara, trailer demais, propaganda demais e, quando finalmente se entrega à experiência, precisa disputar a atenção com a luz de um smartphone na lateral do olhar. Como entrar num templo e encontrar alguém fazendo live do altar.
E antes que alguém diga “compra um cinema para você”, convém lembrar: o silêncio da sala não é frescura de cinéfilo; é parte do ingresso. A experiência coletiva não autoriza a bagunça coletiva, pelo contrário. Estar com outras pessoas deveria aumentar nossa responsabilidade, não diminuir. A liberdade de um espectador termina onde começa o direito do outro de entender o diálogo sem narração simultânea.
Há também um detalhe geracional que precisa ser tratado com cuidado. Dizer que “todo adolescente é assim”, porque seria injusto e preguiçoso. Há jovens que sabem se comportar melhor do que muito adulto que atende ligação no meio da sessão ou acha normal comentar o roteiro como se estivesse no sofá de casa. A questão não é idade, é formação, é repertório de convivência, é alguém ter dito, em algum momento da vida: quando a luz apaga, a gente respeita a tela, o filme e os outros.
Mas talvez ninguém tenha dito.
Ou talvez tenham dito e o algoritmo tenha falado mais alto.
Saí do Kinoplex do Vale Sul com a sensação estranha de quem viu dois filmes. Um estava na tela, com sua ambição épica, seus caminhos, seus perigos e seu desejo de retorno. O outro estava ao lado, menor e mais irritante, mas talvez mais revelador: a história de uma geração ou de um tempo que desaprendeu a ficar em silêncio diante de alguma coisa que não seja ela mesma.
No fim, Odisseu só queria voltar para casa.
Eu também.


