IP Entrevista | BIKE, psicodelia do Vale para o mundo

Em 2024, durante um sábado comum na Ilha Fantasma, conheci Daniel Fumega. Em meio à conversa, ele mencionou casualmente: “Tenho uma banda”. Curioso, peguei o celular, abri o Spotify e digitei o nome que ele me passou: Banda BIKE.

Voltando para casa, coloquei as músicas para tocar e conferi o perfil da banda no Instagram, onde havia diversas imagens de apresentações internacionais. Uma breve pesquisa revelou que o grupo já possuía significativa relevância não apenas no cenário nacional, mas sobretudo no cenário internacional.

Senti incredulidade e frustração por não conhecer a banda antes, e indignação pelo fato de serem tão pouco reconhecidos na própria cidade natal. Motivado por um misto de bairrismo e pela qualidade indiscutível do som, decidi entrevistar Diego Xavier (39 anos), guitarrista e vocalista da BIKE, para discutir a trajetória do grupo, suas influências musicais, o recente álbum Arte Bruta, o processo criativo coletivo e as experiências em turnês internacionais. O resultado é uma história que revela resistência cultural, experimentação sonora e paradoxos locais.

Da esquerda para direita: Gil Mosolino (Baixo), Diego Xavier (voz e guitarra),Daniel Fumega (bateria) e Júlio Cavalcante (voz e guitarra). Foto por André Almeida / Divulgação
Da esquerda para direita: Gil Mosolino (Baixo), Diego Xavier (voz e guitarra),Daniel Fumega (bateria) e Júlio Cavalcante (voz e guitarra). Foto por André Almeida / Divulgação

Psicodelia nascida em São José

Criada a partir das experiências anteriores de seus integrantes em bandas do Vale do Paraíba, a BIKE surgiu oficialmente em 2015, idealizada inicialmente por Júlio como um projeto solo. Com Diego Xavier, Daniel e Gil na atual formação, a banda consolidou sua identidade sonora com forte influência do rock psicodélico clássico – estilo marcado por guitarras distorcidas, melodias experimentais e uma abordagem sensorial da música, semelhante ao som de grupos como Pink Floyd e Tame Impala.

Além disso, incorporou elementos da tropicália, representada por artistas como Caetano Veloso e Os Mutantes; do krautrock, gênero alemão caracterizado por ritmos repetitivos e eletrônicos, exemplificado por Kraftwerk e Can; e dos ritmos afro-brasileiros, com sua percussão marcante e raízes culturais profundas.

A origem do nome BIKE remete diretamente à música homônima do Pink Floyd e, de forma ainda mais simbólica, à famosa viagem psicodélica de Albert Hofmann, criador do LSD, durante uma pedalada histórica. Em 19 de abril de 1943, Hofmann experimentou acidentalmente os efeitos da substância ao retornar para casa de bicicleta, após manipulá-la em seu laboratório — episódio que ficou conhecido como “Dia da Bicicleta”.

A imagem do blotter de LSD mais famoso é o que ficou conhecido como “Bike”, em homenagem ao ano da sua descoberta psicodélica e o Dia da Bicicleta.
A imagem do blotter de LSD mais famoso é o que ficou conhecido como “Bike”, em homenagem ao ano da sua descoberta psicodélica e o Dia da Bicicleta.

De São José para Seattle

O primeiro single lançado pela banda, “Enigma do Dente Falso”, integrou a coletânea 30th Century Records Compilation Volume I, organizada pelo produtor internacional Brian Burton — conhecido como Danger Mouse — que já trabalhou com artistas como Red Hot Chili Peppers, Adele e Gorillaz. Esse marco inicial projetou a BIKE para o cenário global antes mesmo de a banda conquistar espaço na cena local.

Capa da coletânea 30th Century Records Compilation Volume I
Capa da coletânea 30th Century Records Compilation Volume I

Desde então, o grupo não parou de alcançar palcos internacionais. Diego destaca o festival Nox Orae, na Suíça, como um dos mais memoráveis: “Foi um festival incrível, tanto pela recepção calorosa do público quanto pela organização impecável”.

Programação do Festival Primavera PRO de 2017. Divulgação.
Programação do Festival Primavera PRO de 2017. Divulgação.

Outra apresentação marcante aconteceu na rádio KEXP, em Seattle – uma referência global em música independente -, que ampliou significativamente a visibilidade da banda. Confira no YouTube:

“Arte Bruta” e a expansão sonora

Lançado em 2023, o álbum Arte Bruta representa um aprofundamento significativo da identidade musical da banda. Segundo Diego, o disco nasceu das experimentações realizadas durante a pandemia, resultando em uma desconstrução e reconstrução sonora sob a produção do renomado músico e produtor Guilherme Held.

Esse trabalho intensificou as influências brasileiras, com destaque para ritmos afro-brasileiros e percussões, elementos que chamaram a atenção especialmente do público estrangeiro. Entre as faixas, destacam-se “Filha do Vento” e “Santa Cabeça”, ambas com mais de 40 mil reproduções no Spotify.

Capa do álbum Arte Bruta de 2023 - Banda Bike
Capa do álbum Arte Bruta de 2023 – Banda Bike

“A psicodelia para nós nunca foi apenas estética. É uma experiência sonora genuína e um ato político”, afirma Diego, ressaltando o caráter experimental e conceitual que a banda busca desde sua criação, permanecendo fiel ao gênero desde o início.

A difícil conexão local

Apesar do sucesso internacional e da presença em festivais importantes, a BIKE enfrenta um paradoxo em São José dos Campos. Diego reconhece que, mesmo após dez anos de trajetória e diversos eventos públicos locais, muitos moradores ainda desconhecem o trabalho da banda. Para ele, falta uma política cultural mais ampla e estruturada na cidade, capaz de valorizar e apoiar os artistas locais.

Diego critica abertamente a falta de infraestrutura da Fundação Cultural Cassiano Ricardo e o apoio às bandas da cidade: “É difícil aceitar que São José não tenha sequer equipamentos básicos, como bateria e amplificadores, para eventos culturais públicos. Todo evento tem que alugar equipamentos, tem que abrir licitação”.

Ainda assim, ele faz questão de ressaltar o papel da Fundação: “São José tem editais para caramba. Conversando com outras bandas de outras cidades, elas ficam com inveja. A gente sabe que a Fundação Cultural tem condições de fazer muito mais”.

Diego enfatiza também seu apego afetivo por São José e acredita ser possível expandir globalmente sem abandonar as raízes locais: “Quando estamos fora do país, estamos representando não só a BIKE, mas todas as bandas daqui do Vale. Levamos essa responsabilidade com muito orgulho”.

Criatividade coletiva e resistência cultural

O processo criativo da BIKE é marcado por uma colaboração profunda entre seus integrantes. As músicas surgem de jam sessions espontâneas — encontros musicais improvisados, nos quais os integrantes tocam livremente, sem estrutura ou roteiro pré-definido. Essas sessões são gravadas e posteriormente editadas em conjunto, resultando em composições experimentais e únicas. Esse método criativo é uma das chaves para o frescor e a autenticidade da banda.

A pesquisa musical contínua também é fundamental para o grupo. Diego menciona que todos os integrantes são ávidos colecionadores de vinil e estão sempre explorando novos ritmos e influências: “Cada álbum é resultado de estudos intensos e um desejo constante de inovação sonora.”

BIKE EURO TOUR 2024

Confira abaixo um mini-documentário da turnê que a banda BIKE realizou pela Europa em 2024, registrando os momentos mais íntimos e os bastidores dos shows.

Leia mais em: IP Entrevista: Margôol Pool

Banda Bike: O futuro sem fronteiras

Noise Meditations - Banda Bike - 2025
Capa do álbum Noise Meditation, lançado em Setembro de 2025.

Com o lançamento do novo disco, Noise Meditation agora em setembro, a BIKE continua expandindo suas fronteiras musicais e geográficas, fortalecendo a conexão com o público internacional enquanto busca maior reconhecimento em sua própria cidade.

O álbum já está disponível no YouTube:

A viagem sinestésica da BIKE é inspiração de criação coletiva, experimentação sonora e resistência cultural, provando que, muitas vezes, é possível ser simultaneamente uma referência global e um tesouro ainda a ser descoberto pela própria cidade.

Não deixe de conhecer a banda e seguir nos canais:

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