A cultura em São José dos Campos: entre o conservadorismo e a resistência
por Renata Guarino
Em São José dos Campos, a produção cultural se manifesta em diferentes regiões e formatos. No centro, nas periferias e nas áreas rurais, há grupos de Folias de Reis, Congadas, Moçambiques com manejo de bastão, danças de São Gonçalo e cavalgadas, além de expressões contemporâneas como o hip-hop, o grafite, o cosplay, as batalhas de MCs, os grupos de violeiros e as orquestras de viola caipira. De acordo com o livro Cultura Popular do Vale do Paraíba Paulista de Jacqueline Baumgratz, essa diversidade mostra que a cidade reúne elementos da cultura popular tradicional e da arte urbana, coexistindo com o perfil industrial e tecnológico que a tornou referência no Vale do Paraíba Paulista.
Apesar dessa produção intensa, o setor enfrenta dificuldades estruturais e falta de continuidade nas políticas públicas. A Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR), órgão municipal responsável pela gestão da cultura na cidade, tem sido alvo de críticas de artistas e produtores pela ausência de diálogo e pela escassez de apoio. A situação se agravou com episódios de censura e cancelamentos de eventos, como o da Festa Lítero-Musical (FLIM) de 2025, e com debates em torno da concessão do Parque da Cidade e da retomada da Conferência Municipal de Cultura.
Uma cidade dentro da outra
Para Jacqueline Baumgratz, produtora cultural e fundadora da Cia Bola de Meia, a história e o comportamento social de São José dos Campos ainda refletem marcas de um passado autoritário. “São José dos Campos ainda tem o pensamento colonizador e preconceituoso, tem um grau de preconceito muito grande”, afirma. Segundo ela, essa herança está ligada tanto ao processo de industrialização quanto à presença militar consolidada na cidade.
O desenvolvimento econômico joseense se intensificou a partir da instalação do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) – hoje Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) – em 1950, e da inauguração da Via Dutra, em 1951. A partir desse momento, São José dos Campos passou a ser vista como polo industrial e tecnológico, o que trouxe crescimento populacional e urbanização acelerada. Porém, também consolidou a influência das Forças Armadas na vida cotidiana e política do município.
Durante a ditadura militar, essa presença se tornou ainda mais evidente. Relatos reunidos pela Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São José dos Campos apontam casos de perseguições, prisões e desaparecimentos de documentos, além de abusos cometidos por autoridades ligadas ao CTA. O relatório também cita as ações que levaram à substituição do então prefeito eleito Elmano Ferreira Veloso, da Arena – partido de sustentação do regime -, pelo coronel da Aeronáutica Sérgio Sobral de Oliveira, nomeado interventor pela ditadura.
A própria cidade carrega símbolos desse período. Um de seus bairros, o 31 de Março, tem nome em referência direta ao golpe militar de 1964. Segundo reportagem feita pelo G1, muitos moradores desconhecem essa origem, o que reforça a permanência de um legado histórico ainda pouco debatido.
Jacqueline destaca que essa influência não desapareceu. “Nós temos uma cidade dentro da outra. Nós temos uma cidade militar, que é o CTA — um espaço que tem prefeitura, banco, casas, tudo. É uma cidade com prefeito. E nós temos essa cidade dentro de outra cidade, que cada vez mais, infelizmente, demonstra um pensamento autoritário e religioso fundamentalista”, afirma.
Além da herança militar, religiões de base fundamentalista também ganharam espaço nas últimas décadas. De acordo com o Censo do IBGE de 2022, católicos representam 56,75% da população joseense, enquanto os evangélicos já somam 26,85%, números que refletem o avanço de grupos religiosos conservadores na região. Essa influência também tem impacto direto no campo cultural.

Infográfico: Renata Guarino -com fontes do IBGE
Neste ano, o fundamentalismo religioso interferiu em um dos principais eventos literários do município: a Festa Lítero-Musical (FLIM). A jornalista Milly Lacombe foi impedida de participar do evento após declarações críticas à “família tradicional brasileira”, o que gerou repercussão nacional e reacendeu o debate sobre liberdade de expressão e censura cultural em São José dos Campos.
A resistência de produtores e artistas
Diante de um cenário marcado por conservadorismo, desmonte institucional e falta de diálogo com o poder público, artistas e produtores culturais de São José dos Campos têm se mobilizado para garantir espaços de expressão e reivindicar uma política cultural mais democrática. O Fórum de Cultura de São José dos Campos é o principal espaço de articulação desse movimento. O grupo reúne produtores, coletivos, artistas independentes e representantes da sociedade civil, atuando na defesa de políticas permanentes, na fiscalização da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) e na promoção do diálogo entre o setor e a gestão municipal.
De acordo com George Furlan, representante do Fórum, a cidade enfrenta hoje uma política cultural “pouco transparente e centralizadora, que prioriza grandes eventos e produtos de visibilidade midiática, em detrimento da construção de políticas públicas permanentes, territoriais e inclusivas”. Para ele, o resultado é um cenário em que muitos artistas e produtores acabam à margem dos processos decisórios, enfrentando dificuldades para acessar recursos, espaços e editais com critérios claros e democráticos.
O Fórum reivindica uma gestão participativa e transparente, com a reativação dos conselhos setoriais, a criação do Conselho Municipal de Política Cultural e a reforma administrativa da FCCR. Também defende a atualização do Plano Municipal de Cultura, a ampliação das vagas e oficinas culturais e o fortalecimento do Fundo Municipal de Cultura (FMC), garantindo a descentralização territorial e a diversidade de linguagens. Outro ponto de destaque é a reocupação e democratização dos equipamentos culturais, e a proteção da memória e do patrimônio cultural.

Conferência Municipal de Cultura acontece após reinvidicações da comunidade artística de São José dos Campos – Foto: Renata Guarino
Nos últimos anos, a mobilização do setor se expandiu para o campo político. A criação da Frente Parlamentar de Apoio à Cultura, na Câmara Municipal, levou as pautas dos artistas ao Legislativo e abriu espaço para novas formas de interlocução com o poder público. Mais recentemente, a Comissão de Criação do Plano Municipal de Cultura passou a reunir representantes da sociedade civil e do governo para transformar as demandas históricas em diretrizes concretas. Esses avanços são resultado direto da pressão exercida por artistas e coletivos que, após dez anos sem a Conferência Municipal de Cultura e sem atualização do Fundo Municipal de Cultura, lutam para reconstruir as instâncias de participação social.
Apesar dessas conquistas, Furlan avalia que a relação entre os artistas e a FCCR ainda é marcada pelo distanciamento e pela falta de escuta qualificada. “Em São José dos Campos, a cultura ainda é tratada como evento, e não como direito. A cidade é rica em produção cultural e pobre em política cultural”, afirma. Segundo ele, o público joseense demonstra interesse pelas produções locais, mas “falta o poder público criar as condições reais para que isso aconteça, com políticas de formação, descentralização e fomento”.
A mobilização também se estende para além das instituições. O movimento “O Parque é do Povo”, por exemplo, surgiu em reação à tentativa de concessão de parques públicos à iniciativa privada, como o Parque da Cidade. Os manifestantes defendem que esses espaços permaneçam públicos, com gestão voltada ao bem comum, investimentos em cultura e preservação ambiental.

Manifestantes protestam contra concessão do Parque da Cidade em São José dos Campos – Foto: Renata Guarino
Outro ato simbólico dessa resistência foi o Ocupa FLIM, realizado no dia 19 de setembro, em frente ao Parque Vicentina Aranha. O evento ocorreu em protesto ao adiamento da Festa Lítero-Musical (FLIM) e à censura imposta pelo prefeito Anderson Farias, que vetou a participação da jornalista Milly Lacombe. A mobilização reuniu escritores, produtores e artistas da região que participariam da programação oficial e decidiram manter o diálogo com o público de forma independente.
A idealizadora da Flim, Analú Oliveira, reforçou que a festa sempre foi marcada pela diversidade e pela pluralidade de vozes. “A Flim nunca foi uma festa exclusiva, ela sempre foi plural, aberta a todas as cores, etnias e religiões. A atitude do prefeito é uma atitude de exclusão”, afirmou . Para Analú, a decisão da prefeitura demonstra falta de compreensão sobre o papel da arte e da literatura. “O slogan da Flim 2025 trazia justamente essa ideia de nos colocarmos no lugar do outro. Mas isso não foi entendido pelas autoridades joseenses. É uma pena”, lamentou
A escritora destacou ainda a importância do posicionamento dos artistas locais diante da censura: “Fico muito gratificada por ver autores joseenses se posicionando. Não participar de um evento assim não é uma decisão fácil, porque há medo de retaliação, de não ser chamado novamente, mas era necessário”

Escritores regionais participam de roda de conversa durante o Ocupa Flim – Foto: Renata Guarino
Para Furlan, o desafio está em romper com a lógica de marketing institucional que substitui o trabalho de base. “A cultura será de fato reconhecida como direito quando deixar de ser privilégio de poucos e se tornar parte da vida cotidiana, nas escolas, nas praças, nos bairros e nos equipamentos públicos abertos à diversidade”, defende. Ele completa: “Enquanto prevalecer a visão mercadológica e centralizadora, a cultura seguirá sendo vista como adorno – e não como o que realmente é: um direito social essencial à democracia, à memória e à dignidade do povo.”


