Opinião | Resistência ao Feudalismo Contemporâneo
Por Fernando Alves.
As ações culturais e ocupações do espaço público resistem a investida da “cidade inteligente”, primeiro, pois implica um espírito festivo anárquico, libertino e pulsante no espaço, e segundo, que expõe a visibilidade social por parte dos praticantes, ao mesmo tempo que estabelecem uma divergência estética e social na cidade, integrando várias redes e microculturas urbanas.
Para os grupos sociais marginalizados ou estigmatizados o espaço não está dado, o espaço está em disputa, onde os mesmos, precisam reunir capital espacial, econômico e social, para conseguir visibilidade e o direito de ser na cidade, é justamente trabalhando com as barreiras materiais e simbólicas e tentando superá-las que os fazedores de cultura periféricos e os boleiros criam inovadoras formas de espacialidades, que fazem parte da “invenção do cotidiano”.
Para tanto, eu vou usar como o funk, o hip hop e o futebol tornaram – se um espaço de resistência, em detrimento a conhecida “São José dos Feudos”, polo científico tecnológico, marcada pelo forte processo de industrialização e por diversos investimentos realizados para o desenvolvimento de pesquisa e de tecnologias para o setor aeroespacial.
O grande Plínio Marcos dizia que “Eu conto história das quebradas do mundaréu. Lá de onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos. Falo da gente que sempre pega o pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove, que só berra da geral sem nunca influir no resultado. Falo dessa gente que transa pelos estreitos, escamosos e esquisitos caminhos do roçado do bom Deus. Falo desse povão, que apesar de tudo, é generoso, apaixonado, alegre, esperançoso e crente numa existência melhor na paz de Oxalá.”
Nessa toada, tenho percebido cada vez mais presente nessa cidade distópica chamada “São José dos Feudos”, uma série de ações culturais realizadas nas periferias da cidade, algumas, sem a noção de que aquilo que eles estão produzindo, é cultura, outros, com a ideia bem formada nas suas letras, para além do fazer cultural, é uma festa que demonstra as estratégias criativas, inovadoras e, de certa forma, subversivas desses jovens periféricos, jovens que se movem, atravessam as escalas na cidade e arquitetam, ainda que de forma espontânea e transitória, uma territorialidade no espaço urbano, ou seja, um lugar onde podem trocar entre eles seus códigos e produções simbólicas, são jovens que, no âmbito do consumo agrupam valores de outras classes sociais, como forma de buscarem alguma visibilidade social, mas que também expressam uma vontade coletiva dos jovens de viver seus gostos e buscar seus interesses, suas práticas espaciais demonstram uma periferia urbana não isolada em fragmentos, mas articulada pela força dos vários tipos de agenciamentos, entre os quais aqueles praticados pelos jovens e suas ocupações culturais na periferia.
Um outro assunto que me chama a atenção quando nós discutimos territorialidades, é o futebol de várzea, nascido junto ao processo de expansão da cidade de São José dos Feudos, permanece como importante prática social e de lazer da população e associado às margens e marginalizações, com o processo de especulação imobiliária, essas pessoas são empurradas para a periferia da cidade, onde se reestrutura e permanece como prática social essencial em seu modo de vida, de maneira direta ou indireta, ao se revoltar contra o processo de espoliação urbana, essa população conquista sua cidadania e passa a mover práticas de disputa pelo espaço urbano, ou seja, podemos considerar o futebol de várzea como prática insurgente de planejamento urbano, eu não sei ao certo quantos campos de várzea nós temos em São José dos Feudos, mas quando vou ver jogos do campeonato de várzea da cidade me lembro do geógrafo Milton Santos quando ele aborda o conceito de espaço geográfico, como um espaço é um conjunto indissociável de sistemas de objetos e ações, ou seja, o espaço “mistura” as relações sociais, para um objeto possuir função social, ele deve possuir relação com a sociedade, pois, isolado, ele tem função apenas de coisa, e só a ação humana é o que transforma o espaço, neste sentido, é possível traçar um paralelo entre o futebol praticado na várzea e sua relação com o território, ou seja, a ação humana transformou um espaço antes desocupado trazendo a ele nova função, recentemente, nós acompanhamos a derrubada de um símbolo esportivo da cidade, para que no lugar fosse construído torre de apartamento, o que me leva a crer que a resistência e sobrevivência dos campos varzeanos da cidade suscitam às pessoas e grupos a articulação de memórias, práticas e significados, sendo, portanto, atribuídos de um valor simbólico, na qual fica muito difícil politicamente falando, da prefeitura desapropriar para a finalidade de negócios imobiliários, vontade é o que não falta.

Fernando Alves @fernando.ac89
Graduado em História e Gestão Pública, Mestre em Ciência Política, Professor de Atualidades, Consultor Técnico para Políticas Públicas de Cultura, Parecerista em Editais Culturais, Membro de Comissão de Heteroidentificação, e autor dos livros “Um jogo dentro do jogo” e “Contestado das maiorias oprimidas”.



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