IP Entrevista | Magôo Pool
A trajetória da artista que transforma resistência em arte
Magô Pool é um exemplo de persistência e criatividade em um mercado desafiador como o dos quadrinhos. Cartunista, ilustradora, roteirista e quadrinista, ela não apenas encontrou na arte um meio de expressão, mas também uma ferramenta de resistência. Nascida em São José dos Campos, no interior de São Paulo, Magô construiu sua trajetória com humor ácido, críticas sociais e uma vontade inabalável de contar histórias que refletem a realidade brasileira.
“Eu não me sinto muito conectada com São José dos Campos enquanto artista”, admite. Para ela, a cidade não oferece o suporte necessário para fomentar uma cena artística. “É difícil construir algo criativo num lugar onde a cultura não é prioridade. Muitos artistas daqui acabam tendo que ir para São Paulo ou mudar de carreira para sobreviver.” Apesar do ambiente pouco favorável, foi em São José que Magô deu seus primeiros passos na ilustração, provando que é possível resistir mesmo diante das adversidades.
Uma entrada inesperada no mundo dos quadrinhos
Magô começou sua trajetória ilustrando para o portal Overdrive da MTV. Naquele momento, a internet ainda estava encontrando seu espaço no consumo de conteúdo, e as redes sociais não tinham a relevância que têm hoje. Sua paixão por música e seu envolvimento com webséries foram determinantes para que a MTV notasse seu talento. “Eu comecei a ilustrar profissionalmente em 2008, fazendo charges semanais com temas musicais. Foi assim que entrei nesse mercado“, relembra Magô.
Apesar de sua habilidade com desenhos, foi o amor pela escrita que a levou aos quadrinhos. Inspirada por nomes como Glauco, Angeli e Laerte, ela encontrou no formato das tiras e cartuns a liberdade para se expressar. “Eu escolhi fazer quadrinhos porque não desenhava muito bem, mas gostava de escrever. E o que eu desenhava já era suficiente para passar a mensagem“, afirma.
O impacto de “Bicho Selvagem” e sua relação com o mercado editorial
Em 2022, Magô lançou Bicho Selvagem, sua primeira graphic novel, de forma independente. A obra, que teve uma tiragem inicial de apenas 300 cópias, foi criada em meio a um cenário de desafios para quadrinistas autônomos. “Produzir independente é muito difícil. A distribuição é limitada, e as tiragens são pequenas. Você quer que sua obra seja lida, mas é complicado alcançar o público”, explica.
Dois anos depois, a história ganhou uma nova chance ao ser relançada pela Editora Veneta, um marco que Magô considera transformador:
“Ser publicada por uma editora grande significa reconhecimento. Quando você é independente, às vezes parece que ninguém está te vendo. Agora, com a Veneta, minha obra pode alcançar muito mais pessoas.”
Apesar de considerar Bicho Selvagem uma obra com falhas, Magô acredita que ele cumpre bem seu propósito. “Ele é claro na sua mensagem e foi o início de algo maior. Ter essa chance de relançar pela Veneta é a prova de que, às vezes, tudo o que precisamos é de uma oportunidade.”
Resistência e coletâneas: “Histórias Contadas”
Dois anos após Bicho Selvagem, Magô lançou a coletânea Histórias Contadas Enquanto Eu Vendia Pipoca na Esquina da Galeria de Arte. A obra reúne histórias que ela produziu gratuitamente para as redes sociais, numa tentativa de transformar a resistência em ação.
“É um quadrinho de frustração e resistência. Queria mostrar o quanto já havia produzido e como o mercado ainda era fechado para artistas independentes. Banquei o projeto e ele foi essencial para consolidar minha trajetória.”
“Segue o Baile” e o enfrentamento de temas urgentes
O próximo grande projeto de Magô, Segue o Baile, é uma HQ sobre violência policial e racismo estrutural, temas que, para ela, são urgentes e dolorosos. A obra foi aprovada no edital do PROAC e está prevista para 2025.
“O quadrinho conta a história de quatro jovens negros em uma noite de diversão que termina tragicamente. Ele dá nome e visibilidade a pessoas que são tratadas como estatísticas, humanizando essas histórias.”
Magô criou uma história que humaniza as vítimas da violência. “Você ouve no jornal: ‘bala perdida’, ‘conflito policial’. Mas quem são essas pessoas? Elas têm família, sonhos. A história fala disso, de como jovens negros carregam um alvo antes mesmo de cometerem qualquer coisa”, explica.
A internet é uma ferramenta central na narrativa de Segue o Baile, com uma live gravada pelos personagens se tornando peça-chave da trama. Para Magô, essa escolha reflete a força e a urgência do digital na luta por justiça:
“A internet é uma ferramenta poderosa para denúncia. Casos como o de George Floyd, nos EUA, só tiveram repercussão porque foram gravados. Uma imagem tem o poder de causar indignação e mobilizar as pessoas.”
Desafios de narrar o desconforto
Abordar temas tão delicados como racismo e violência policial não foi fácil. Magô revela que um dos maiores desafios foi construir a perspectiva dos policiais de forma autêntica, sem cair em estereótipos. “Quero que a narrativa passe verdade. Não quero criar personagens que parecem tirados de filmes ou construções artificiais. Estou pesquisando, conversando com PMs, para trazer essa camada de realidade”, explica.
Ela também destaca o impacto emocional do tema: “Falar de violência é pesado, mas é necessário. É uma forma de dar visibilidade a essas histórias e promover um debate profundo sobre o racismo estrutural no Brasil.”
Reconhecimento e representatividade
Ao longo dos anos, o trabalho de Magô foi ganhando cada vez mais reconhecimento. Em 2022, ela recebeu o prêmio Pretas Potências e foi finalista do Troféu HQMix, a maior premiação de quadrinhos do Brasil. Esses marcos tiveram um impacto profundo em sua visão de si mesma e de seu papel no cenário artístico.
“O prêmio Pretas Potências foi um divisor de águas. Ele validou minha trajetória e me deu confiança para ocupar meu lugar como mulher negra na luta antirracista.”
Ser indicada ao HQMix foi um sonho realizado. “Nunca imaginei que um dia estaria ao lado de artistas que admiro tanto. Isso reforça minha responsabilidade em continuar produzindo e usando minha voz para representar histórias que precisam ser contadas.”
Um futuro cheio de possibilidades
Magô Pool continua expandindo seus horizontes. Confirmada como convidada especial no Artists’ Valley da CCXP24, ela encara essa nova etapa com entusiasmo. “É um grande marco na minha carreira. Quero levar meus trabalhos, conhecer pessoas e aprender muito nesse processo.”
Para 2025, o lançamento de Segue o Baile é a prioridade, mas Magô não pretende parar por aí. “Tenho outros projetos em mente, mas tudo depende de oportunidades e editais. Meu foco é continuar explorando temas relevantes e provocativos, usando o quadrinho como ferramenta de transformação.“
Magô Pool é uma artista que transforma resistência em movimento. Suas histórias não apenas refletem o Brasil, mas desafiam o leitor a sair da zona de conforto e a enxergar o mundo sob novas perspectivas. Com um pé na luta e outro na criatividade, ela continua expandindo os horizontes do quadrinho nacional, provando que a arte pode, sim, ser um agente de mudança.




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