Editorial: Se não reconheço o Outro, estou ouvindo de verdade ou só falando comigo mesmo?
Nota conjunta sobre o impedimento da vinda de Milly Lacombe pelo prefeito de São José dos Campos
“Nenhum homem é uma ilha”. É com a citação do poeta inglês John Donne que se abre o texto curatorial da Festa Lítero-Musical de São José dos Campos (Flim). A organização do evento, no entanto, parece levá-la ao pé da letra. Afinal, Donne não falava de uma mulher — muito menos de uma mulher lésbica.
Faltando poucos dias para o início da Flim, um movimento reacionário iniciou uma verdadeira caça às bruxas entre os participantes convidados. A vítima escolhida desta vez foi Milly Lacombe, jornalista, escritora e roteirista brasileira. Feminista e militante da causa LGBTQIAPN+, Milly se tornou o alvo perfeito para a ala conservadora da cidade destilar ódio e deixar de lado um valor que costumam afirmar defender: a liberdade de expressão.
Mais uma vez, o grupo moralista saiu vitorioso. Em nota à Revista IP, a assessoria de comunicação da Flim informou que Milly Lacombe não participará mais do evento. Segundo a nota, a “decisão foi tomada em comum acordo com a convidada, objetivando preservar a integridade de todos os envolvidos”. Um posicionamento que contrasta com o tema proposto para esta edição: “Ubuntu – eu sou porque nós somos”, uma lembrança de que nossa existência não se sustenta sozinha, mas se constitui sempre na relação com o outro.
Quando perguntamos a uma inteligência artificial o significado da frase de John Donne, a resposta é clara: “a frase transmite a ideia de interdependência humana, solidariedade e pertencimento a uma comunidade maior”. Se até as máquinas já compreenderam isso, o que falta para que a humanidade também aprenda?
A censura aplicada pelo prefeito Anderson Farias evidencia a total falta de entendimento sobre o tema proposto. Mais sintomático ainda é o fato de ele se orgulhar da decisão, repercutindo-a em diversos canais de comunicação — tão retrógrados quanto ele, talvez?
Nós, da Revista IP, nos posicionamos contra a decisão tomada pela equipe da Flim. Essa escolha resume-se a algo inaceitável: censura. Como meio de comunicação independente e crítico, defendemos a liberdade de expressão de todos os artistas e produtores culturais em São José dos Campos. Não podemos mais naturalizar atitudes autoritárias apenas porque “São José é assim mesmo”.
Estaremos presentes no evento como forma de resistência e para ocupar um espaço que deveria, de fato, ser de todos.
Equipe da Revista Cultural IP



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