Lygia Pape: trajetória, experimentação e presença no cotidiano
Lygia Pape (1927–2004) foi uma das artistas mais importantes da arte brasileira do século XX. Nascida em Nova Friburgo e atuante no Rio de Janeiro, desenvolveu uma produção ampla que atravessa gravura, escultura, pintura, cinema, design e ensino, articulando diferentes linguagens em torno da relação entre forma, percepção e experiência.
Iniciou sua formação com Ivan Serpa e Fayga Ostrower, integrando o Grupo Frente nos anos 1950, ao lado de nomes como Hélio Oiticica e Lygia Clark. Nesse período, sua produção se desenvolve a partir da abstração geométrica, com pesquisas baseadas em linha, ritmo e estrutura.
A série Tecelares, realizada entre 1955 e 1959, marca esse momento. São xilogravuras construídas por tramas lineares que exploram repetição e variação. A madeira interfere diretamente no resultado, com seus veios e irregularidades atravessando a composição. As imagens se organizam como campos visuais que se alteram conforme o olhar percorre a superfície, criando variações que não se fixam em uma única leitura.

Em 1959, Lygia Pape assina o Manifesto Neoconcreto, ao lado de Ferreira Gullar e outros artistas, consolidando sua participação no Neoconcretismo. A partir desse momento, sua produção incorpora o tempo, o corpo e a participação como elementos centrais da obra.
Nesse contexto, realiza o Livro da Criação (1959), seguido por Livro da Arquitetura e Livro do Tempo. Composto por páginas recortadas e dobradas, o trabalho dispensa texto e organiza a experiência a partir da manipulação. Cada abertura cria novas relações entre forma, espaço e volume, sem sequência fixa.
Sem texto ou orientação, a obra se organiza por meio de cortes, dobras e vazios que se transformam a cada manuseio. A leitura não segue uma ordem única e cada gesto produz uma configuração diferente. O livro passa a depender da ação de quem o manipula, organizando a experiência a partir desse contato direto.

Nos anos 1960, sua produção se expande para o cinema e para experiências coletivas. Trabalha com o Cinema Novo, criando cartazes e aberturas para filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. Ao mesmo tempo, desenvolve obras participativas como Divisor (1968), em que um grande tecido coletivo organiza o deslocamento simultâneo de várias pessoas.
Sua trajetória inclui atuação como professora na Escola de Belas Artes da UFRJ e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, formando gerações de artistas e mantendo diálogo constante com novas práticas e linguagens.
Ao longo da vida, participou de exposições fundamentais no Brasil e no exterior. Esteve presente nas Bienais de São Paulo desde os anos 1950 e integrou mostras internacionais que ampliaram a circulação de sua obra. Recebeu prêmios como o da Associação Brasileira de Críticos de Arte e foi contemplada com bolsa da Fundação Guggenheim, em Nova Iorque, experiência que contribuiu para a projeção internacional de seu trabalho.

Após sua morte, em 2004, sua produção ganhou novas leituras e passou a ocupar espaço em grandes retrospectivas. Obras suas foram apresentadas em instituições como o Museo Reina Sofía, em Madri, e a Serpentine Gallery, em Londres, além de integrarem acervos e exposições de destaque. Sua presença em mostras como a Bienal de Veneza reforça a continuidade de seu reconhecimento no circuito internacional.
Paralelamente ao circuito artístico, Lygia Pape desenvolveu projetos de design que se inseriram diretamente no cotidiano brasileiro. Entre eles, destacam-se as embalagens da Piraquê, criadas nos anos 1960. A repetição dos elementos gráficos e a organização visual simples tornaram-se imediatamente reconhecíveis, atravessando gerações.
Essas embalagens fazem parte da experiência visual cotidiana no Brasil, presentes em casas, mercados e mesas. Ao mesmo tempo em que sua obra circula em museus e exposições internacionais, sua linguagem também se fixa nesse espaço comum, integrado à vida diária.

Sua produção se organiza entre esses dois campos. De um lado, a experimentação artística e a participação. De outro, a presença contínua no cotidiano. Em ambos, mantém uma investigação consistente sobre forma, espaço e percepção, consolidando sua importância na arte brasileira e ampliando o alcance de sua obra para além dos espaços especializados.

Victoria Ferreira D’Almeida
Designer gráfica e graduanda em História, investiga a arte brasileira a partir da visualidade, iconografia e memória. Idealizadora do projeto Brasil Arte e Significado, produz análises e conteúdos que conectam cultura, imagem e história, com foco em perspectivas decoloniais e interseções culturais. Veja mais em: @brasilarteesignificado

Gilberto Marques
Artista plástico formado pela FAAP (SP), atua com volume e abstração a partir de materiais recicláveis. Sua produção reflete sobre espaço, memória e pertencimento. Desde 2018, trabalha como produtor e curador independente em São José dos Campos. Veja mais em: @gilbertomrc
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